Casa di Bebel ... Rabiscos sem papel

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27 setembro 2009

Leite em pó

... dirigia seu carrinho prata tão sonhado. Dentro dele havia ela e seus sonhos sonorizados. Ela e suas músicas inesperadas ampliadas pelo rádio. Ia pra onde sempre se permitia ir: queria um café amargo com leite e creme acompanhado por algum docinho pequeno. Tinha tudo o que amava por perto e o que lhe faltava habitava seu coração. Céu nublado num dia lindo. Ela gostava tanto de cinza! Desfrutava de uma certa alegria que só encontrava em dias como aquele: nem frio nem quente. Adorava aquele céu cinza. Nem precisou abrir as janelas pra sentir a brisa.
Sentiu algumas de suas saudades espalhadas pelo mundo. E a música ia ampliando cada um de seus sentimentos. Cantarolou.
Coração confiante em si.
Antes disso:
... em sua casa o casal visitante dormia pra descansar de tanto. Irmã dele era cunhada dela. Seu acompanhante-marido, uma mala, uns cursos, uma despedida, uma promessa de retorno próximo. Havia acordado cedo e arrumado a mesa do café. Cenário pronto lembrou da ausência do pão. Pegou as chaves do paraíso e acelerou. No caminho se perdeu em seus desejos: aquele café com docinho lá de antes. Parou na padaria e se permitiu uns goles de café. A doçura deixou pra depois.
Depois de quase tudo foi ao supermercado pra comprar o leite em pó de sua cunhada. Apressada quis voltar em tempo. No tempo deles.
A música de volta e a espera dela pelo que tocaria depois ... ela tinha a leveza como companhia. Dentro do carro olhou pra lata de leite em pó. Inesperadamente teve uma vontade súbita de experimentar. Ponto morto. Na parada em frente ao semáforo encontrou seu tempo: retirou a tampa de alumínio fininho. Fez dela uma colherinha e se deliciou.
Do ponto morto à lúdica vida.
A música alta, os vidros fechados, o leite em pó grudando céu da boca, o sabor do inesperado e a coragem de se pemitir. Travessuras de criança num corpo de mulher. Riu de si. Viu o banco do carro polvilhado de leite em pó. Não se contaminou. Só soprou.
Desviou-se do prazer e percebeu o carro preto ao lado. Reconheceu o olhar. Ele a viu e se tornou cúmplice dela na aventura. Incluinado quis confirmar e riu da lata que ela segurava junto ao volante. Denúncia de um (de)leite infantil. Timidamente ela se deixou observar e se viu rindo junto com ele.
Depois do vermelho ... o verde sempre vem. Sinal aberto e o caminho para a partida. Despedida. Os olhares se desviaram mas o riso foi junto com cada um. E a vida prosseguiu depois da cumplicidade de um instante. Em casa o leite em pó foi à mesa. Misturado com o café o leite dissolveu e o sabor se modificou. A vida era sempre uma possibilidade para o inesperado.

Um comentário:

ratinha disse...

Texto maravilhooooso. Parabéns. Uma pena que eu nunca tenha provado o gostinho do leite em pó, sem mistura.