Casa di Bebel ... Rabiscos sem papel

Casa di Bebel ... Rabiscos sem papel

22 julho 2009

Dos improvisos ao roteiro ... Quanto?

A espera sempre foi desafio pra ela. A espera e o silêncio.
Duas semanas de espera e silêncio cortantes. Pouca ação. A câmera não rodava e nada se enquadrava tão bem quanto em dias cheios de Olhos Vivos. Esperou pelo dia da ciranda. O amontoado de história estava apoiado na mesa ... um monte branco destacava linhas pretas. Pensou: o que diriam elas? Como diriam por ela? Além da mesa, por trás dela, uma tela branca projetaria toda a vida daqueles 8 meses de trabalho vivo. Olhava para a pilha de textos enquanto esperava pelo mediador de tudo aquilo. Ele se atrasaria porque ficara perto das ondas espumantes de sua Ilha da Magia. O vestido havia começado a ser filmado. O vestido havia sido levado pelas ondas do mar de Moçambique. Iemanjá havia se alegrado ... por certo .... ele viria com seu cansaço adormecido pelo encantamento daquele roteiro empilheirado depois de tantos dias de (re)união: de frases e vida, de diálogos e seus sentidos, de força e controle, de uma certa dor. Enquanto esperavam por ele ... a primeira leitura se deu. E aos goles ela ia se embevecendo com o que havia dito e como haviam organizado. Reconheceu seus colegas em cada frase e em cada solução de cena. Dos improvisos à sistematização. Admirou-se do trabalho desenvolvido, da resolução que utilizaram pra contar uma história, pra encontrar seus nexos, pra emoldurá-las em seus tempos e cores. Naquela leitura ainda viu a arte aprisionada nas falas duras de quem não se aconstumou a degluti-las minunciosamente. Haveria a vez deles (as). Depois da última sílaba sistematizada ... vieram os olhos que se procuravam. A expectativa deles em nós ... a nossa sempre neles. E os comentários começaram a se avolumar. E, como quase sempre, ela se encorajou a fazer suas primeiras análises: apontou uma rasidão numa das cenas ... quis manter algumas essências. Pra além disso estava entusiasmada. As coisas haviam tomado um rumo delicado e simples. Era uma história doce e que por ser assim poderia se tornar especial.
O simples é sempre o mais difícil.
Sugeriu. Deu-se uma segunda leitura ... desta vez foram ela e seus companheiros que digeriram as letras que se posicionavam. A ansiedade de ficar naquela palavra e não correr para a próxima era um exercício de controle da ansiedade. Sentiu-se mais presente. E, aos poucos, alguma vida se deu ainda que timidamente. O volume espesso da palavra sentida começou a aparecer. Uma palavra ocupa espaço na boca, por vezes, há cócegas nas bochechas. Por outras há falta de saliva que seca o que há pra ser dito ... de tanto se sentir.
No meio da leitura o homem que veio do mar entra e o azul colore. Ele e seu papel de quem media a dor (mediador). Ele e sua insisitente vontade de ver o ator nascer e permanecer mesmo que seja por segundos. Iniciais segundos. Dos abraços e beijos ao retorno da leitura. Tudo passa a ter mais sentido para os que dançam a ciranda. Comentários... defesas, manutenções, olhares cruzados, olhares cúmplices, doçura, medo, confiança, reconhecimento, vontade, adequação e respeito. Alguns mais avolumados que outros, mas todos no mesmo lugar pra contar uma história conhecida por ser vivida e aconchegada dentro daquelas portas vermelhas. Muito de nós estava por ali. E havia permanecido.
Ela confessou um certo desassossego ... um quase medo. Mas aliviou-se ao reconhecer em seus pares uma vontade ... verdadeira ... de que tudo se daria o máximo que pudesse. Era o nosso ínédito viável como dizia Paulo Freire. Era o que de melhor havíamos oferecido e conquistado. Era aquele o nosso tempo. Aliviou-se por alguns segundos ... mas ... são os segundos que dão o ritmo do tempo. Alongaria-se.

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