Casa di Bebel ... Rabiscos sem papel

Casa di Bebel ... Rabiscos sem papel

17 agosto 2009

A melancolia é a continuidade da saudade

Arte em fotografia: Marco Novack

Ela acordou moída. Como aquela carne moída que vem embalada. Pronta pra ser preparada em fogo quente.
Ela pensou estar pronta pra voltar da vida, pronta pra seguir à vida sem enquadros, com bem menos luz e com muito pouco som. Quis disfarçar sua melancolia. Embora a tatuagem fosse somente uma vontade aquela melancolia já era quase cicatriz.
Os dias haviam corrido mais do que o habitual. Aliás haviam sido dias inéditos. Tanta coisa .... coisas tamanhas. Entre técnica e sopros de vida. Entre Olhos Cheios e opacos. Entre doçuras e a acidez da bile. Entre a vergonha da derrubada conhecida e a vontade de fazer mais. Entre as mãos delicadas que buscavam contato e os olhos enviesados do ciúme. Entre a dor da partida e o reencontro na despedida. Entre tanto ... ela se via moída. Como aquela carne do supermercado emplastificada. Em plástico. De plástico. Isso, definitivamente, não a protegeria de nada. Nem dela mesmo. Expôs suas carnes vivas. Nem o figurino disfarçou sua vermelhidão.
Naqueles dias de vida inventada entre mentiras programadas ela havia sido mais ela do que antes. E o que deveria ser uma invenção se tornava cada vez mais realidade. Realidade que havia nela oferecida pra Vera. Ambivalências no set de filmagem. Ela se via de tempos em tempos. Entre uma Ação e outra havia segundos de possibilidades. Ela na tela. Ele com Olho nela. Ela tentando responder aos Olhos deles. Era tanto Olho! Era tanto ela. Ela cada vez mais dentro dela. Naquela tela. Estranhava-se ainda. O sofrimento diminuia com o passar? Cessaria o pesar um dia?
Entre luz e Olhos Vivos ... havia um lugarzinho pra ela. Ela sentia ... iria se ver em breve. Grande e cheia. Esperaria sem muito pesar. Esperaria pra se responder. Dentro da película saberia responder ... nem que fosse só por um dia. Pressentia a saudade ... acostumaria-se. Porque a melancolia é a continuidade .... da saudade.
Há arte? À arte?

2 comentários:

Chris Spode disse...

Bel querida..... aiai! Te conheço, conheço tua entrega, e agora, suspiro de satisfação e orgulho ao te ver assim, moída, moída de paixão pela tua arte, moída de esperança e confiança nos olhos cheios alheios, moída pq moer-se e entregar-se é arte para poucos: apenas os sinceros e puros de intenção conseguem. Te conhecer e ver, mesmo de q longe como foi agora, todo esse processo, torna tudo tão rico! Vendo e lendo sobre sua melancolia em prosa, aprendo um pouquinho mais sobre a vida, um pouquinho mais sobre ti, um pouquinho mais sobre mim... E te saber lá (ou aqui), sempre com esmagos dispostos e ouvidos atentos, faz com q tudo fique melhor. Te ter na minha vida é um privilégio, viu?
adoro-te! beijos!

Renata disse...

Plástificada ou não, embalada ou não, você parece sempre inteira nas suas emoções e nos seus projetos. Ás vezes precisamos deixar-nos moer para aprendermos a importância de cada pedacinho...

Um beijo grande!

Rê.